Uma escola em Mandalay

Na sala de aula escondida nos fundos de um pequeno monastério em Mandalay, a moldura com a fotografia de um monge exilado na Suiça não esconde, aquele é um reduto da resistência democrática em Myanmar. É uma escola livre, diferente das até bem arrumadas escolas públicas do país. Uma pequena sala de aula onde aprende-se inglês.

O professor lê em voz alta num inglês macarrônico, enquanto seus alunos o imitam. Leêm artigos de revistas velhas, não há material escolar. Uma, duas, três vezes. A cada nova palavra, uma pausa. O professor vai até a lousa branca equilibrada na parede de barro e escreve a novidade e sua tradução para o Myanmar. A classe repete em uníssono. E a leitura prossegue.

O inglês é lingua franca da Ásia. O esforço para aprendê-la é a luta por trabalho. Estar entre turistas estrangeiros é uma oportunidade para se fazer um troco e agora mesmo os franceses se esforçam para falar inglês (depois da aula, um monge me conta a seguinte piada: uma pessoa que fala três línguas é trilingue, a que fala duas é bilingue e a que fala apenas uma é frances.)

Chega a minha vez de falar. Um dos alunos me convidou para “dar uma aula” para sua turma. Comecei a falar sobre geografia do Brasil. Rios, florestas, índios, imigração, praias, o cerrado. Não se interessaram pelo mapa que eu desenhei. A curiosidade sobre que diabos eu estaria fazendo em Mandalay tinha pouco a ver com o fato de eu ser brasileiro. Se eu fosse paraguaio, daria no mesmo.

A visão sobre o Brasil, embrenhada pelos jogadores de futebol, me parece a percepção que temos de alguns países africanos a partir de maratonistas famosos. Gana, Etiópia ou Quenia, qual a diferença?

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