Um tipo de saudade

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Parafraseando um pouco Nelson Rodrigues, Kind of Blue é dessas coisas que parecem existir mesmo antes da criação do universo. Claro, se quem ouve hoje pela primeira vez o disco gravado em 1959 reconhece a transformação que ele provocou na música a ponto de ter a sensação de já ter ouvido aquilo antes, quem viveu a experiência sublime de ouvir o disco à época do lançamento, mergulhou numa dimensão musical até então inimaginável, talvez só alcançada ainda por quem pôde ouvi-lo numa boa noite de amor.

Como uma grande obra erudita, os sons, climas e pausas de Kind of Blue não se esgotam. É possível ouvi-lo indiscriminadamente por anos a fio sem perder a aura de sua genialidade.

“Kind of Blue, a história da obra-prima de Miles Davis”, de Ashley Kahn (Editora Barracuda) põe um pouco de luz – por contraditório que possa parecer – sobre as sessões de gravação do mítico disco de Miles e seu quinteto (e depois sexteto), nos estúdios da Columbia, em Nova Iorque. Kahn é evidentemente um grande fã de Miles. É sempre um risco uma biografia escrita por um admirador entusiasmado. Mas o livro, mais do que sobre Miles, é uma biografia de um disco, de um grande momento da história da música. Dentro dos limites da louvação e da idolatria, o texto é instigante e alcança um objetivo primoroso, transportar o leitor para os momentos mágicos de um processo criativo grandioso e inspirador.

Domenico de Masi, em seu “A Emoção e a Regra”, faz uma investigação sobre grupos criativos europeus entre 1850 e 1950, analisando os processos pelos quais algumas organizações tão díspares como a Bauhaus ou o Projeto Manhattam (EUA) conseguiram num curto espaço de tempo produzir idéias e conceitos revolucionários e duradouros. As sessões de gravação de Kind of Blue poderiam igualmente figurar em qualquer corolário de grandes realizações coletivas. É um trabalho de um gênio cercado de talentos de primeiro time, onde a liberdade e o respeito individual construíram uma obra que beira a perfeição (Kind of Blue não é perfeito, porque assim é melhor). Depois da segunda guerra e do fim do sonho moderno, poucas coisas têm a mesma grandeza. Em Kind of Blue, pode-se ter fé na humanidade.

Em tempo: Como “saudade” no português, “blue” é um estado de espírito que só a lingua inglesa exprime apenas numa palavra.

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