Joanna e seus dreads

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Joanna MacGregor subiu ao palco do Cultura Artística com seus longos e bem cuidados dreadlocks prateados. O que se seguiu foi um programa variado e virtuoso.

De saída, um macio “Concerto para Teclado nº5” de Bach, seguido por três peças de John Dowland, um contemporâneo de Bach. Os arranjos de Joanna são ousados e inovadores, sobretudo na segunda peça, “Mr. Dowland’s Midnight”, assombrosamente jazzística, com um baixo intenso e atmosfera cinematográfica.

Joanna então saiu do palco, e também o piano. Os músicos da Britten Sinfonia exploraram a “Lachrymae” de Benjamin Britten, conduzidos pela viola de Martin Outran. A partitura de Britten é uma fantasia reflexiva bastante moderna, alternando, sempre num crescendo, momentos de experimentalismo e lirísmo.

Volta o piano, volta Joanna. No “Levante” de Osvaldo Golijov – compositor argentino de criatividade inesgotável na trilha bem aberta por Piazolla – Joanna enfrenta o piano com firmeza deixando à mostra cada músculo de seu braço, enquanto dá vida às brincadeiras cubano-argentinas da peça Golijov. Um jogo cativante de sentimento e robustez. Sem perder o fôlego, a orquestra volta a acompanhar Joanna num tango fortíssimo, “Last Round”, diz o programa “urgente-macho – Macho, cool and dangerous”, bem humorado, cheio de referências a Gardel, ao próprio Piazolla e otras cositas más. Real e fantástico como Golijov, uma espécie de Cortázar da música.

Intervalo.

Então Joanna voltou com uma interpretação brilhante do “Concerto para teclado nº 1” de Bach. As duas peças de Bach tocadas por Joanna e a Britten Sinfonia foram técnicamente perfeitas, sutis, com Joanna num estilo próprio, feminino, intenso e envolvente, quase romântico.

Novamente, tira o piano, sai Joanna e saem os dreads, a orquestra leva tranquila o “Concerto em Ré para Orquestra de Cordas”, de Stravinsky, um bem tramado anti-climax antes do final da apresentação.

Volta o piano, volta Joanna, voltam os dreads. Duas peças de Egberto Gismonti, “Forrobodó” e “Frevo”. Joanna novamente em cena, ainda mais vibrante, desafiando piano, orquestra e público a uma leitura europeizada e deliciosa da música de Gismonti.

Joanna dos dreads, seu piano e orquestra fizeram um espetáculo maior.

Um comentário em “Joanna e seus dreads

  1. Que cena interessante, Bach tocado por uma pianista cheia de dreads!O programa do dia 7 também deve ser ótimo. Há algum tempo assisti uma das obras – Arvo Pärt, “Cantus in Memory of Benjamin Britten” – e gostei muito.

    Aguardo os próximos posts,

    Pati

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