Yanomamis Livres

Na Folha de domingo (11/04), um artigo algo imperdível do filósofo esloveno Slavov Zizek, sobretudo para os bem intencionados circulando com camisetas “Free Tibet”. Não raro, o Tibet e a resistência tibetana é entendida como uma luta entre bonzinhos e malvados, uma redução simplista que está na base do conservadorismo involuntário das boas intenções. Zizek registra a situação caótica vivida pelo Tibet independente pré-1949, um país cuja elite privilegiada desfrutava do mais arcaico feudalismo, deixando seu povo à miséria enquanto seus filhos cresciam em escolas britânicas na India. Mais além, o articulista lembra o envolvimento na CIA na incitação anti-China e coloca em xeque a visão corrente de que a “limpeza cultural” promovida pela China seja um fenômeno importado, sem nenhuma interlocução no interior da provincia. É uma abordagem critica e bem fundamentada, até para os que pretendem defender o tal “Tibet Livre”, a rigor, uma invenção da imaginação silk screen.

Na passagem mais interessante do texto, Zizek faz menção a um tema de especial interesse para este que vos aborrece. A percepção de filial do paraíso que o budismo, ou o entendimento corrente do que vem a ser budismo, goza. Há uma tendência de projetar o Tibet e o budismo em geral como uma Xangri-lá do equilíbrio e da boa vontade, o que, na realidade, é uma tentativa de alíviar a barra do nosso próprio consumismo desenfreado e vaidoso. Um atalho perigoso, higienizando sociedade e religião, retirando questões de fundo de conflitos seculares, invariavelmente tensionados e irracionais, de ambos os lados. Nem o Tibet pré-China era um paraíso, nem o budismo é uma religião “adaptável” ao século XXI. E mesmo o Dalai Lama – e Zizek não parece se dar conta desse fato – não se cansa de reforçar que não devem existir “meio budistas” em seu abnegado rebanho.

Grande parte das manifestações de artistas e personalidades pró-Tibet se encaixam nessa espécie de cartilha da cultura coió cabecinha boa e miolo mole. Pega bem estar ao lado de tibetanos, palestinos, tchetchenos ou qualquer outro David insurgente contra os malvados Golias do mundo. Nesse embate, cuja porosidade abunda, roga-se culpa total aos “malvados” e perdão absoluto os “coitados”. Nesse contexto, por que não os Yanomamis?

Em tempo: estive num campo de refugiados tibetanos na India, numa localidade próxima a Bangalore e na província chinesa de Yunnan, vizinha ao Tibet. O campo de refugiados é tratado como área de segurança nacional pelo exército indiano. Convidado a me retirar por não ter autorização legal para estar ali, a truculência do policial indiano contrastava com a delicadeza dos traços e encantamento dos gestos da jovem tibetana que convidou para assistir as festas Ano Novo Tibetano. Em Zhongdian, auto-proclamada a verdadeira Xangri-lá, a população tem marcadamente influência tibetana, nas roupas, nos monastérios e na face das pessoas.

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