Em Bancok com Paul Auster

Na minha frente por exemplo há um casal de americanos. A moça é esguia e clara. O rapaz está de costas para mim e só posso ver sua calvice proeminente. Estou aqui há duas horas e não os vi trocar uma palavra. São recém-casados. Folheiam revistas e sugam o resto de Coca Light com gelo derretido. Meus olhos deixam a cena por um momento. Volto a ler o livro que comprei numa banca de usados em Bancok. Muitos títulos são deixados por americanos em suas férias na Tailândia. Pouca coisa aproveitável. Esse “Brooklin Follies” me custou dois dólares e não tem me custado nada devorá-lo. Quando estão de volta, vejo que o rapaz foi quem saiu. Teria ido o banheiro ou comprar uma última lembrança para sua mãe no Alabama. Ou será Newark? Tanto faz. O importante é que agora posso ver melhor a moça.

Loira, quase nórdica. Calça jeans desbotada de um desleixo caipira cinematográfico. Encaro firmemente por alguns minutos. Ela retribui. Encarar desconhecidos é um divertido passatempo. Pessoas respondem de maneiras diferentes e extrai-se uma boa dose da personalidade do encarado. A moça loira do restaurante era obviamente uma observadora astuta, tinha técnica nesse jogo. Com o olhar perdido, ela podia ou não estar olhando para mim. Estava.

Se estivesse sozinha poderia sentar-me ao seu lado. Mas seu companheiro chegou em seguida e sem trocar nenhuma palavra, apanhou um folheto de ofertas de free-shop. Estão no fim de suas férias. Em breve voltarão a alguma vida suburbana no interior dos Estados Unidos. Ela tem um emprego de meio período na biblioteca da faculdade, ele foi promovido a gerente numa revendedora de pneus. É um bom emprego. Um grande distribuidor no meio-oeste e foi ele quem conseguiu os tais bons contratos com transportadoras da região. Seu patrão não tem herdeiros e aposta nele para tocar o negócio durante a aposentadoria.

Depois dessa viagem a Tailândia, vão pensar em filhos. Ela tem um olhar indeciso como se estivesse condenada aquela vida. Uma casa no subúrbio, uma pá para tirar a neve da porta, uma mini-van, talvez vá mais ao cabelereiro.

Vou lhe escrever uma mensagem nesse guardanapo. Digo o quanto me apaixonei naqueles poucos minutos em que a encarei, agradeço a retribuição do olhar e peço ao garçom que lhe dê a mensagem assim que eu sair do restaurante.

O destino dessa moça está agora nas mãos do garçom. Ele me vê entrando na sala de embarque, decide amassar o guardanapo e jogá-lo no resto de Coca Light com gelo derretido que eu estava tomando. O bilhete se desmancharia em segundos e essa história acabaria aqui.

Ou o garçom lhe entrega o bilhete. Ela vai lê-lo e não vai segurar o sorriso, seu olhar vai brilhar. O namorado vai lhe interrogar sobre o bilhete. Vão iniciar uma discussão. Ela dirá que não sabe do que se trata, ele vai questionar o garçom. Vai sair atrás do culpado. Não o vi mais.

Passarão as 10 horas de vôo calados. Precisam pegar uma conexão para Newark ou Alabama. Ela diz que resolveu não ir mais e pega o primeiro vôo para Nova Iorque. Ele volta para os pneus.

O garçom não tem idéia do que se passou. Ou o guardanapo se desfez no resto de Coca Light com gelo derretido.

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