Brasil, o campeão 2

“O brasileiro gosta de ignorar suas próprias virtudes e exaltar as próprias deficiências, numa inversão do chamado ufanismo. Sim, amigos, somos uns Narcisos, às avessas, que cospem na própria imagem.” Nelson Rodrigues escreveu isso em 57, praticamente um ano antes de cunhar o espetacular “complexo de vira-latas”, assunto de sua última crônica escrita antes da seleção partir para a vitória na Suécia.

Alguns dos meus infinitos leitores criticaram uma nota aqui pendurada citando, entre outras coisas, o volêi e até o MST(?) como atividades coletivas em que o Brasil se destaca. Coincidentemente, leio um artigo do Clóvis Rossi, na Folha, sustentando que a massa de jornalistas brasileiros que circula pela Alemanha para cobrir a copa, deve-se ao fato de que o futebol é a única atividade em que o Brasil é “world class”. Não acho. A Embraer é “world class”, a própria Petrobras, quicá a Globo ou o próprio jornal em que trabalha o articulista, são “world class”. Não é essa a questão.

O que se passa no Brasil é que, salvo excessões – e eu tenho que fazer essa ressalva, ainda que óbvia – articulações que movimentem pessoas e idéias em direção a um objetivo comum não vingam. Sim, o futebol é a jóia da coroa da brasilidade. Surgem craques aos borbotões, mas não porque há um esforço social em fazer crescer grandes atletas. Muito pelo contrário. É mais ou menos como a história das latinhas de alumínio. Um desavisado gritará “somos campeões do mundo em reciclagem de latas de alumínio!”. Um pouco mais de atenção e, olhando para fora da janela do carro, se vê que nossa taça de alumínio não se dá porque o governo tem um grande programa de reciclagem, ou porque o cidadão comum tem consciência ecológica, mas sim porque há muita gente a quem só resta revirar sacos de lixo e sacar uma latinha como prêmio.

O caso da Embraer é outro. Fundada em meio ao chumbo grosso da ditadura, goste-se ou não, tinha um objetivo estratégico. Ela é resultado de um ato deliberado dos comandantes da nação: fazer uma empresa de aviões e criar uma base tecnológica consistente para o país. Num artigo recente, Cristovam Buarque lembra que não foi apenas a vontade da governo em criar a empresa. Já haviam o Instituto Tecnológico da Aeronáutica e o Centro de Tecnologia Aeronáutica, investimento de sucessivos governos. Ou seja, claramente quando se constrói um projeto a coisa vai. Mas até o presente momento, só funciona na base da excessão.

Quanto ao MST, realmente não entendi o porquê da citação. É sim um movimento articulado, tem um objetivo coerente, mas parte de um pressuposto de rompimento nacional, justificado diga-se, e não de integração. Os esforços do MST são em benefício próprio, contra o latifundiário e o agro-negócio que também agem em benefício próprio. É uma conta que se anula.

Agora, o volêi? Vai pastar. Em plena copa do mundo eu vou pensar em volêi? Não sei nem se se acentua.

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