Bloqueio

Na capa do Lonely Planet sobre Mianmar, um adesivo amarelo pergunta “Should you go?”. O guia oficial dos mochileiros é muito honesto em abrir essa discussão e a recente crise em Mianmar reacende à opinião pública uma questão árdua, aparentemente impossível de um veredito final. Afinal estados totalitários devem ser boicotados pela comunidade internacional? A tentação em responder positivamente essa pergunta esbarra numa constatação bastante óbvia. Quem sofre com sanções sempre é o andar de baixo e o conceito de “estado totalitário” muda de acordo com a cara do freguês.


É ingenuidade relegar a ditadura de Mianmar apenas a um capricho dos militares no poder. Mianmar não é um ex-colônia africana. É notável a unidade nacional do país, seja pela língua, pela religião ou territorialidade. Assim como as chamadas “questões de estado” eståo na pauta do dia dos comandantes em verde-oliva. Seria preciso voltar um pouco na história do país. A Birmânia, como ainda a chamam alguns, era uma colônia britânica de relativa importância até o levante nacionalista, de caráter militar e a subsequente tomada do país pelos comunistas. Sempre sob a tutela de militares nacionalistas.

Um novo golpe, dessa vez liderado por militares nacionalistas de direita – o nacionalismo é último refúgio dos canalhas – converteu o país em Mianmar. Faz sentido, Birmânia é um nome colonial britânico. A partir daí foi grande a dificuldade para conter a influência chinesa na região e as guerrilhas, tradicionalmente refugiadas nas selvas da fronteiro com a Tailândia e o Laos.

Em pânico anti-comunista, a junta militar demorou a entender as transformações do vizinho gigante, e assim apertou ainda mais as amarras do regime. Terroristas e guerrilheiros escondidos na floresta já faziam parte do folclore quando a China acenou com seu dinheiro. Não é razoável supor que a China vá fazer algo pela democracia por lá. Nem lá, nem na África, onde o país investe pesado sem concessões a qualidade do regime. (É bem verdade, que no campo oposto, as exigências “democráticas” do Banco Mundial, FMI e afins não me parecem tão saudáveis assim). A China, por seu turno, reluz o suficiente para que seu regime não seja colocado em questão. É a cara do freguês.

Ao ver George W. Bush defendendo o bloqueio internacional ao país, podemos vê-lo defendendo o bloqueio a Cuba, ineficiente para derrubar Fidel e eficientíssimo para oprimir ao povo cubano. Os interesses norte-americanos em ambos os países são relativos. Cuba já não é a ameaça de outros tempos e Mianmar, bem Mianmar não existia até a semana passada. Para esses casos, embargo está de bom tamanho.

Olhando bem para a cara do freguês, certamente a alternativa não é chamar o Rambo, invadir o pais, matar os “bad guys” e libertar o povo, como se simulou no caso do Iraque. A cara do freguês é outra. Rambo aliás, andou por lá, não resolveu nada e ainda ganhou promoção grátis para o sua nova fita.

Um comentário final: mesmo sob risco de parecer ingênuo, creio numa fórmula contrária. A comunidade internacional deveria irrigar o país com novos recursos, assistência emergencial e turistas de lazer e negócios, apesar da junta. Só a circulação de novas idéias e oportunidades, o fortalecimento de uma classe média organizada e principalmente, a articulação de novas lideranças democráticas para pactuar a transição no país, farão o regime desfalecer.

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