Bento e as palavras

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Afinal o que Bento XVI disse de errado? Ressalva feita a provacadora lembrança da passagem do imperador bizantino Manuel II e seu imaginário interlocutor persa, o Papa coloca propositadamente em debate, a “patologia visceral que incentiva a violência como ato religioso”. Óbvio, ele não reconhece o igualmente lastimável uso da violência judaico-cristã contra islâmicos. Mais ainda, alimenta a porção político-econômica do discurso ocidental nessa crise. Não a tôa, W. Bush o aplaude. Enterrando definitivamente a diplomacia interreligiosa de João Paulo II, Bento XVI expõe a ferida aberta do conflito de civilizações.
Está claro, esse é um fato positivo. A questão se resume a sacralização da violência. De ambos os lados, bem entendido. Algo que deveria estar superado no século XXI.
Ressentidos e acuados sob condições econômicas degradadas, islâmicos verbalizam sem retórica sua violência. Queimam o boneco do Papa – no Brasil, queimar bonecos de políticos é uma brincadeira carnavalesca – ameaçam explodir embaixadas, enfileiram seus homens, mulheres e crianças bomba. É razoável imaginar que grande parte dos manifestantes não tenha mesmo idéia do que efetivamente foi dito.
Já a sutileza tecnológica ocidental institucionaliza a violência, ritualizando como guerra o mesmo objetivo de eliminação do diferente. Não é necessário voltar a Inquisição para perceber esse mesmo instinto. De ambos os lados, a violência é o caminho escolhido para conversão.
O discurso do Papa de maneira alguma é inocente. Nem poderia sendo ele Ratzinger. Ele parte a para o conflito, jogando todo o peso da irracionalidade no inimigo, prática recorrente nas crises de Israel/Palestina e dos EUA/Iraque. É um movimento para a platéia ocidental.
Cabe talvez a essa platéia, lembrá-lo que o Senhor abomina os dois pesos e duas medidas.

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