Então Habeas Corpus

Semana passada meu caríssimo amigo Álvaro Andreucci defendeu sua tese de doutorado na História da USP. É um gênio da raça. Por “raça” me refiro a meia dúzia de três ou quatro que vi perambular pelas ruas do bairro. Depois do “Risco das Idéias”, sua tese de mestrado sobre a perseguição de intelectuais na Era Vargas nascida do recém aberto arquivo do Deops, o trabalho do agora Dr. Andreucci versa sobre as agruras vividas pelos próceres do Superior Tribunal de Justiça, entre 1933 e 1942, quando Vargas usou toda a sua força para constranger juízes com sua paradoxal política, autoritária e populista, eficiente e popular. “A Cadeira de Espinhos” é o nome da peça.

Dr. Andreucci é bom de títulos. Reparem bem, são dois títulaços. Ainda não li ainda sua mais recente obra, aprovada com recomendação à publicação. Posso falar de “O Risco das Idéias”, um texto despretencioso e, por essa razão, instigante. O tratamento dado pelo autor ao privilégio de ter feito parte do primeiro time de pesquisadores a escrutinar os arquivos do Deops é rico e pleno de curiosidades. Vou repetir aqui a minha preferida.

“(…) Mario Lago, acusado de participar da “Campanha Antiatômica” e o pintor Korotkoff Lioubomoristy, imigrante de Constantinopla em companhia de uma “meretriz judaica Riva de tal”. Ou ainda essa simpática cantiga anarquista (de Filhos do Povo, grafia original):

“Esses burgueses assás egoistas.; Que assim desprezam da humanidade; Serão varridos pelos anarquistas; Ao bradol viril da liberdade.; Ah! Rubro pendão; Abre o porvir; A exploração; Há de sucumbir; Nosso paiz; Não romperáz; Torpe burguez; Atraz! Atraz!”

Pois bem, numa quarta-feira fui assistir à banca examinadora arguir meu velho amigo e ainda pré-doutor Andreucci. Preparado para uma final de campeonato, fiquei surpreso com o clima sereno de aprazível pelada dominical. Vá lá, frente aos não tão duros questionamentos da banca, o doutor, em verdade um arqueiro de grande envergadura, distribuiu argumentos como um Ademir da Guia das palavras. O grandíssimo camisa 10 palestrino, que entendeu como poucos o ensinamento supremo de “quem deve correr é a bola, não o jogador“, não se desapontaria com seu discípulo amortecendo no peito cada altercação e deixando o jogo das idéias fluir em direção a meta.

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