Alckmin queimado?

Um leitor, Diego Armando, – será que esse blog chegou a Argentina? -, me pergunta seu eu li a entrevista da socióloga Maria Sylvia de Carvalho Franco, creio da USP, sugerindo que o candidato tucano Geraldo Alckmin esteja sendo “queimado” numa eleição já perdida. Em primeiro lugar, eu não leio a Veja. No máximo, folheio numa sala de espera. Aliás, se há algo adequado nessa revista, é o nome: veja.

Sobre Alckmin ser “queimado” por caciques tucanos numa disputa já perdida, é uma bobagem. O ex-governador fincou pé por sua candidatura obrigando José Serra, que esperava ser aclamado pelo partido, a recuar. No início do esdrúxulo processo de escolha de candidato tucano, Lula ainda fraquejava em razão das denúncias de corrupção no governo petista. Serra, bem avaliado na capital paulista, parecia ter uma batalha fácil pela frente. Até surgirem dois fatos novos: a posição firme de Alckmin no sentido de concorrer à presidência e a súbita recuperação de Lula nas pesquisas. A ausência de qualquer um desses dois fatos forçaria Serra a entrar na disputa com mais afinco. Sobrou ser aclamado candidato a governador.

Agora, o que perde Geraldo? Derrotado, perderá para o favorito, continuará sendo um candidato viável em 2010 e dessa vez finalmente um nome nacional.

E quem disse que ele vai perder? Alckmin é bom de voto. Desconhecido, quase foi para o segundo turno na eleição que elegeu Marta Suplicy prefeita de São Paulo. Foi eleito governador com a herança de Mario Covas e uma considerável margem sobre o, vá lá, patético José Genoino ainda em meio a onda vermelha que levou Lula ao poder. Ainda tem cara de novidade, é jovem, se expressa bem, tem um carisma de coroinha que funciona para uma boa parte do eleitorado feminino, da classe média e média baixa conservadoras e do empresariado, banqueiros e demais rentistas. E não esqueçamos que Lula ainda está com os flancos abertos, mesmo que as pesquisas indiquem que sua candidatura seja vigorosa.

O que sai chamuscado com a candidatura Alckmin é o resto de consistência ideológica que o PSDB gostaria de ter. Alckmin é um retrato acabado do centrismo pragmático e enfadonho. Não tem grandes idéias – o que no cenário nacional não é um privilégio dele -, não se sente a vontade com conceitos mais sofisticados e pensa a política como um exercício de moderação. Nada mais distante das urgências do país. Mas é com essa arma de moderado que vai a luta, já que seu principal adversário, não passa longe de ser apenas uma personificação da bravata e da leviandade.

Alckmin terá dificuldades para ganhar, mas vai complicar o páreo mais do que Lula imaginava. E a história vai dizer se Lula resistirá a uma campanha em que, pela primeira vez, terá que falar abertamente sobre o mar de lama em que seu governo chafurda.

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