Caveira

Com um pouco de esforço é possível baixar a cópia vazada de “Tropa de Elite” na internet. A onda gerada pela invasão de DVDs nas bancas de camelô deu gás às especulações sobre o filme. De fato, o frisson de “Tropa de Elite” foi na semana passada. Hoje não é mais assunto e o filme deve cair num esquecimento temporário. Já não dá para vê-lo no Youtube e, como disse, dá um certo trabalho baixá-lo na net.

Não é de todo ruim para a carreira do filme. Assim como o lançamento prematuro, ou seja, a pirataria, não foi de todo mal. Houve, digamos, uma democratização da premiére. Apenas com o lançamento oficial, em novembro, será possível saber o estrago real do episódio, se é que houve. Mas a expectativa sobre seu lançamento raramente é alcançada por um filme nacional. Seguramente muita gente vai ver no cinemão, mesmo já tendo visto a alardida cópia pirata.

Pude ver numa operação de torrents (posso ser processado por isso?). É um bom policial, gênero desprezado por essas plagas. Não consigo me lembrar de outro tão bem produzido aqui no Brasil. Aliás, não consigo me lembrar de nenhum outro, deve haver alguns. Filmes policiais no Brasil são geralmente protagonizados por bandidos. O gênero correto no cinema nacional seria, então, Filme de Bandido. Aí são vários e bons: “O Bandido da Luz Vermelha”, “Lili Carabina”, “Dove’ Meneghetti” e por aí vai.

O diretor José Padilha, do magistral “Ônibus 147”, aproveitou boa parte da equipe de “Cidade de Deus”, outro filme de bandido, ainda que o protagonista não o seja. O filme de Meirelles é mais cheio de alternativas, com seu repertório rico em referências e um roteiro habilidoso. Padilha optou por uma condução mais crua da trama, mesmo se utilizando de flashbacks e pistas deixadas ao longo da história. Ambos usam a narração contextualizadora do protagonista. Padilha podia deixar vazar uma versão sem a narração, me pergunto se o filme não ganharia força. Talvez seja pelo mesmo fato de que, se em “Cidade de Deus”, a frase chave é “Dadinho é o caralho! meu nome agora é Zé Pequeno, porra!”, em “Tropa de Elite” é “foi um de vocês é o caralho! quem matou esse cara aqui foi você, seu maconheiro viado!”. A idéia de reforçar a cumplicidade entre o maconheiro rico financiando a violência do tráfico é um mote do Bope.

O filme mostra o Bope como um batalhão de homens bravos, incorruptíveis e bem treinados. Torturam e executam ao bel prazer. Como um pelotão de Jack Bauers, esmagam os “coisa ruim”. A tortura como recurso repressor voltou a ser um tema contemporâneo e não é entendida como corrupção. A classe média no asfalto não está nem aí e o sentimento de que bandido bom é bandido morto pega geral. Sobretudo ao ser confrontado com a malandragem asquerosa da Polícia Militar “convencional”.

“Trope de Elite” vai bombar nos cinemas e o Bope vai sair aplaudido.

PS. A polícia do Rio prendeu cerca de 60 políciais suspeitos de envolvimento com o narcotráfico, o jogo de bicho e a contravenção generalizada. A sequência que mostra o funcionamento do “arrego”, a caixinha de policiais, é uma tragicomédia. Mostra a corrupção contaminando o “sistema” de baixo a cima.

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