O índice do padrão-pobreza

A empresa responsável pela elevação do Brasil ao “Grau de Investimento”  tem cerca de 140 anos. Surgiu da fusão de uma empresa de pesquisas e uma editora. Trata-se de uma produtora de conteúdo, para usar uma terminologia moderna, e faz parte de um complexo de empresas que incluem nomes conhecidos como a Business Week e a empresa-mãe, a editora McGraw-Hill. O objetivo principal dessas companhias é pesquisar, organizar e analisar informações econômico-financeiras para investidores, empresas e países decidirem o que fazer com seu rico dinheirinho, garantindo o bom fluxo de informações privilegiadas a quem acumula no capitalismo global. São, portanto, parte interessada e interessante.

Agora, aquela funcionária aposentada da fábrica de doces do Kentucky finalmente poderá arriscar-se um pouco no mundo maravilhoso dos juros extorsivos cobrados pela banca local e internacional, no mais fantástico processo de transferência de renda de um estado para rentistas ricos. O que antes era privilégio de, digamos, 2% dos brasileiros mais ricos e de investidores estrangeiros mais ousados, com o Investment Grade, estará perto dos bolsos da classe média americana e européia. Ou seja, ganhamos mais bocas ricas para alimentar, com a garantidíssimo pagamento de juros que o estado brasileiro vem cumprindo com rigor, ao longo dos últimos 10 ou quinze anos.

Vi uma entrevista com uma senhora da S&P. Às suas costas uma extraordinária vista da cidade de Nova Iorque e sua bonita paleta de cores, dos tons amarronzados do Brownstone, passando pelo céu plúmbeo até os vidros azulados dos arranha-céus e os pretos de suas arestas. Como uma diretora de colégio, a senhora S&P parabenizava o aluno-caxias, recém-saido da nota C. Virou um B-. E ainda recomendava mais uma outra ou outra lição para o sucesso no mundo dos “países sérios”, como resumiu Lula para seu povo.

Não deixa de ser patético um país do tamanho do Brasil extasiado por uma nota emitida numa salinha de uma empresa privada, ainda que a vista dali seja maravilhosa. Trata-se única e exclusivamente de um prêmio à ortodoxia econômica. Você fez tudo direitinho, ganhou notinha boa. Não é por menos que a S&P aportou no Brasil em 1992, quando a avalanche do mal chamado neo-liberalismo instalou-se no coração da república, cristalizado em oito anos de Pedro Malan na Fazenda e, agora, com Henrique Meirelles no Banco Central.

Numa tradução meio forçada Standard & Poor’s poderia significar “padrão-pobreza”. Não é a pobreza econômica, posto que o Brasil finalmente parece estar num ciclo de prosperidade projetado para o longo prazo. Tampouco há de se condenar que o país honre seus compromissos e siga as regras da razoabilidade econômica.

A mediocridade está na pobreza das idéias, na falta de um imaginário de alternativas de organização social. É uma inversão de valores. O Brasil, quem diria, acabou abençoado por aquela senhora emoldurada por Nova Iorque cujo lenço enrolado no pescoço refletia na reluzente mesa de mogno vindo da Amazônia.

Nosso risco é isso bastar.

(maio de 2008)

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