A geração bônus

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A crise está aí, bem instalada na sala de jantar das famílias, acompanhada dos especialistas descortinando os segredos da derrocada do sistema financeiro e suas consequências para o futuro do capitalismo. Meu plecaro amigo Maurício Barbieri manda o texto publicado por Dani Rodrik, professor de economia política na Escola de Governo John F. Kennedy, na Universidade Harvard.

Diz ele:

O problema é que não há escassez de suspeitos. Terá sido o problema criado por financeiras imobiliárias inescrupulosas que inventaram termos creditícios – como juros “sedutores” e penalidades por pré-pagamento – o que levou tomadores de empréstimos desavisados a uma armadilha de endividamento? Talvez, mas essas estratégias não fariam sentido para os emprestadores, a menos que eles acreditassem que os preços das casas continuariam a subir.

Então, quem sabe o culpado é a bolha no mercado habitacional que se formou no fim da década de 90 e a relutância do Fed de Alan Greenspan de desinflá-la. Mesmo assim, a explosão na quantidade de Collateralized Debt Obligations (CDOs) e títulos similares foi muito além do que era necessário para sustentar os empréstimos hipotecários. Isso foi também verdade no que diz respeito aos “swaps de risco de crédito” (Credit Default Swaps – CDS), que se tornaram um instrumento de especulação em vez de um seguro, e atingiram um espantoso volume de US$ 62 trilhões.

Portanto, a crise poderia não ter atingido a escala a que chegou sem que as instituições financeiras de todos os tipos se alavancassem ao máximo na busca de retornos mais altos. Mas o que estavam fazendo as firmas de classificação de crédito? Tivessem elas feito seu trabalho adequadamente e emitido em tempo hábil advertências sobre os riscos, esses mercados não teriam atraído tantos investidores com terminaram fazendo. Não estará aqui o “x” da questão?

Ou talvez os verdadeiros culpados estejam do outro lado do mundo. Famílias asiáticas fortemente poupadoras e bancos centrais entesourados de dólares produziram excessiva poupança mundial que levou as taxas de juros reais a território negativo, o que por sua vez atiçou a bolha no mercado habitacional americano, ao mesmo tempo em que levou os financistas a iniciativas cada vez mais arriscadas com dinheiro emprestado. Autoridades econômico-financeiras macroeconômicas poderiam ter agido apropriadamente e a tempo para desfazer esses grandes e insustentáveis desequilíbrios em conta corrente. Nessa hipótese não teria havido tanta liqüidez vagando por aí, à espreita de um acidente.

Mas talvez o que efetivamente tenha nos colocado nessa confusão tenha sido o mau papel desempenhado pelo Tesouro dos EUA à medida que a crise foi evoluindo. Por piores que estivessem as coisas, o que fez os mercados de crédito surtar foi a recusa do secretário do Tesouro, Henry Paulson, de ir em socorro ao Lehman Brothers. Imediatamente após essa decisão, os recursos de curto prazo – até mesmo para as empresas mais bem capitalizadas – praticamente despencaram e o sistema financeiro inteiro simplesmente tornou-se disfuncional.

Em vista do que estava prestes a ocorrer, poderia ter sido melhor que Paulson tampasse seu nariz e fizesse com o Lehman o que já fizera com o Bear Stearns e teria de fazer poucos dias depois com a AIG: salvá-la com dinheiro do contribuinte. Wall Street poderia ter sobrevivido e os contribuintes americanos teriam sido poupados de pagar faturas ainda maiores.

Talvez seja fútil buscar uma causa individual sem a qual o sistema financeiro não teria explodido em nossas caras. Um pensamento reconfortante – se o leitor ainda quer acreditar em sanidade financeira – é que esse foi um caso de “tempestade perfeita”, uma rara falha que exigiu que um grande número de estrelas estivesse em alinhamento simultâneo.

Óbvio, a conjunção desses elementos levou a crise. No entanto, igualmente evidente é o fato dessa conjunção ter sido possível em razão de três outros fatores, cristalizados nas últimas duas décadas, a saber, a integração dos mercados financeiros, a desregulamentação do sistema e a descentralização da tomada de decisões.

O primeiro fator é consequência direta da globalização. Não adianta brigar contra ela, é um fato da vida, da vontade humana, do avanço tecnológico. A segunda, é um acontecimento ideológico. Os vencedores da Guerra Fria e assim sendo, condutores da, chamemos, ‘primeira economia da globalização’ consideraram a desregulamentação das transações financeiras condição sine que non para o desenvolvimento do mercado de capitais. Foi uma opção ideológica e não uma necessidade preemente. Nem aqui, nem na China (com o perdão do trocadilho).

Finalmente, o terceiro ponto – a descentralização da tomada de decisões – nociva não pela técnica em si, ou seja, pelas questões tecnológicas que possibilitam a descentralização, mas sim dadas as políticas de remuneração dos novos agentes tomadores decisões, baseadas no chamados “bônus de performance”. Esse é o grande convite à tomada de risco irresponsável, ao desprezo às leis e ao bom senso econômico. Uma coisa é compartilhar lucros e compensar esforços individuais, outra, completamente diferente, é a anarquia vaidosa motivada pelo acumulo descompromissado de dinheiro.

Tais políticas de remuneração, cantadas em verso e prosa por gurus da administração e administradas em doses cavalares no setor financeiro e também na chamada “economia real”, só poderia ser aplicada nesse volume em determinadas áreas das empresas, normalmente aquelas menos sensíveis à complexidade das cadeias de valor existentes nos negócios pós-industriais.

É relativamente simples e sem maiores consequências remunerar vendedores, por exemplo, por seus resultados. O mesmo já não vale para funcionários compradores, a sufocar seus fornecedores, comprometendo a saúde financeira de seus parceiros comerciais e reduzindo sua própria capacidade de desenvolver esses fornecedores no longo prazo.

Há, por fim, setores ainda mais sensíveis, onde o empenho responsável dos recursos da empresa é fundamental a manutenção de padrões e normas técnicas como as de segurança e qualidade. Tomadores de decisão remunerados por bônus, ou para que os bônus sejam maiores que o salários, ignoram critérios de qualidade em nome da redução de custos e consequente aumento de seus próprios ganhos.

Essas políticas de remuneração ameaçam, inclusive, invadir o setor público. Sem regras claras e bem avaliadas, podem ser um tiro pela culatra. Administradas como incentivo ao esforço e a dedicação podem resultar na melhoria da qualidade do trabalho. Deixadas ao vento da competição em estado puro, são a porta escancarada para a falência.

(outubro de 2008)

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