Junho 18th, 2008
A Contribuição Social da Saúde, carinhoso apelido para a volta da CPMF, está na pauta do Senado. Ninguém é contra mais recursos para a saúde. O Brasil investe menos de 2% do PIB na Saúde. O SUS, considerado moderno e universalizante, é caro de saída. Na letra da lei, poucos países tem um sistema tão abrangente. Acontece que não funciona. Afora ilhas de excelência cada vez mais raras, o conjunto da obra reflete as distorções socio-econômicas insuperáveis do país.
A “Saúde”, esse ente, tem até mesmo uma bancada no congresso. Pluripartidária, é verticalmente representada do baixo clero à elite do congresso. Desconfio dessa benevolência. Um estudo recém divulgado do Ipea mostra uma redução da partipação da saúde no PIB entre 1995 e 2005, justamente o periodo de vigência da CPMF. Foi de 1,79% para 1,59% dos gastos totais. A educação, igualmente em crise crônica e talvez em piores condições, sobretudo do ponto de vista estratégico, não goza de tamanha boa vontade dos honoráveis representantes do povo. A redução dos recursos dedicados à educação levou sua participação no PIB de pífios 0,95% para ridículos 0,77% do total. São números desapontadores.
Seria talvez o caso de resgatar uma velha discussão do que é mais importante, investir em saúde ou educação quando o cobertor é curto. A tal bancada da saúde tem facilidade em criar e manter novas contribuições para a saúde, que vão além da defesa dos interesses das seguradoras e das grandes multinacionais dos remédios. A intrincada rede de possibilidades para desvios, em todas as especialidades do ataque ao dinheiro público, torna aos nobres deputados mais indicada essa paixão pela saúde. Uma ambulância aqui, um lote de remédios ali, o superfaturamento do equipamento caríssimo, a nota emitida a esmo pelo médico do “sistema”. Num país como o Brasil, onde o todo o aparato da estado é corrompido, os 10 bilhões que a CSS traria aos cofres públicos, seriam um prato cheio para emendas parlamentares nada inocentes e a pequena politica regional, que imprime o nome do deputado na ambulância comprada com dinheiro federal. A CSS é mais do mesmo.
Tags: Política · ZAGG
Junho 3rd, 2008
Chronicle Review, como podem ver fonte recorrente deste blogue, faz um longo perfil do ministro Mangabeira Unger. Aqui. CR tem um diretório de compilação de artigos, ensaios e resenhas chamado Arts & Letters Daily. É um serviço bem completo, com ligações para os principais jornais, blogueiros e articulistas da lingua inglesa. A&L era um sítio independente, quase fechou as portas depois do 11 de setembro, se não me falha a memória, até ser incorporado pela CR. Esse movimento representou igualmente uma guinada conservadora, tanto no teor artigos quanto na seleção. Sinal dos tempos, uma distenção pós-Bush se avizinha e o A&L deve encontrar um bias mais adequado à proposta orginal. Ainda assim é uma boa fonte de consulta sobre o que se escreve por aí. Como eles se definem, idéias, críticas e debates.
O diretório nunca deu uma palavra sobre o Brasil. Ou melhor, não havia dado até o artigo sobre Unger. Da América Latina, comentários eventuais sobre os escritores consagrados da lingua espanhola, os de sempre, e Chavéz, vez por outra, mas invariavelmente escurraçado na mídia internacional. Ao gigante a despertar e seu carismático presidente, necas. O artigo sobre o ministro “extraordinário” veio na esteira da saída de Marina Silva, uma hecatombe midiática internacional sobre a Amazônia.
Mangabeira Unger é tratado com uma incrível deferência. Em poucas linhas, é comparado a John Stuat Mill e, textualmente, uma citação o lembra como “um dos mais brilhantes escritores (da filosofia do direito) desde Hegel”. Sobre sua opção pela prática da política, o autor do perfil, Carlim Romano, professor de filosofia na Universidade da Pensilvânia, vai até Platão conselheiro de Dionísio de Siracusa e David Hume, alçado ao posto de subscretário de estado. Não sem alguma graça, imaginamos Unger no papel de Platão e Lula, na toga de Dionísio de Siracusa.
Evidentemente, o ministro goza de prestígio no meio acadêmico. As poucas aberturas polêmicas do texto referem-se às sofisticadas análises sobre seus livros e teses de Filosofia do Direito. Romano, passou uma semana com Unger e faz uma bem humorada menção ao suposto constrangimento da inevitabilidade de sua ascensão ao cargo, dada a sua história familiar, sobretudo no relacionamento com seu avô, Otávio Mangabeira. Uma incongruência com algumas de suas teorias mais caras.
Roberto Mangabeira Unger tem uma visão interessante sobre a dinâmica da imaginação transformadora na sociedade. De certa maneira, é um confronto direto com teses tacanhas de “fim da história” e a pretensa estabilidade de longo prazo, e irreversível, das democracias liberais. Suas escolhas políticas no entanto são um tanto aborrecidas. Unger tem fixação em líderes carismáticos, como força motriz dessa transformação. Um equívoco de origem. Deixou-se embalar com o Brizola, quando esse não tinha mais lenha para queimar e depois com Ciro Gomes, a quem as “flexibilizações institucionais” propostas por Unger são pouco recomendáveis.
Pragmatismo, senso de urgência e vaidade o levaram a retroceder nas críticas a Lula. Ainda assim, o caldo harvardiano-tupiniquim de experimentalismo e voluntarismo podem jogar um pouco sabor no marasmo das idéias vigentes. O ministro do longo prazo não terá muito tempo, mas pode fazer um barulho danado.
Em tempo: o articulista se diz intrigado com o fato de Mangabeira trocar um salário de 250 mil dólares por ano pelos ganho de US$4 mil por mês no governo. Não tem idéia do que um cargo como esse pode representar.
Tags: Política · ZAGG
Junho 3rd, 2008
Tags: Alhures · ZAGG
Maio 21st, 2008
Diego foi a Cannes protagonizar o filme de Kusturica. Aproveitou a deixa para alfinetar Pelé, diz a imprensa. Partindo do pressuposto que seja verdade, quer dizer, que o que dizem os jornais seja verdadeiro, Maradona disse que, se não tivesse se viciado em cocaína, Pelé não seria nem o segundo melhor jogador do mundo. Assim, segundo Maradona, se por acaso houvesse o tal “se” e Maradona não fosse viciado em cocaína, Maradona seria o primeiro e o segundo melhor jogador do mundo ao mesmo tempo.
Maradona é uma pandega. Tem a honra de disputar a segunda posição com Garrincha, a alegria do povo.
Veja lances de Maradona, Garrincha e Pelé, clicando abaixo.
[Leia mais →]
Tags: ZAGG
Maio 19th, 2008
A Universidade Metodista do Sul, em Dallas, irá abrigar a Biblioteca George W. Bush. É uma tradição desde Frank Roosevelt ex-presidentes estadunidenses construírem algo homenagem à sua passagem pelo poder. A biblioteca de W. Bush custará 500 milhões de dólares e será feita pelo arquiteto Robert Stern, reitor da faculdade de arquitetura. Bush poderia ter escolhido fazer um monumento ou um memorial para guardar presentes e documentos, como fez Sarney. Supreendentemente escolheu uma biblioteca. Não me parece ser ele um grande leitor. Não por ser conservador e criacionista. Muitos conservadores, e até criacionistas, são dedicados aos livros. No caso de W. Bush, um campo de golfe seria mais adequado.
The Chronicle Review, é uma revista de uma instituição dedicada a apoiar professores e gestores de faculdades e universidades nos EUA. Seu sitio na internet tem mais de 12 milhões de páginas visitadas e 1 milhão de visitantes únicos por mês. The Chronicle pegou carona na polêmica sobre a construção da Biblioteca W. Bush, considerada o futuro alvo preferencial para terroristas e, portanto, contra-indicada para um campus universitário, e promoveu um concurso imaginário de “Bibliotecas Bush”.
Como mostra o videozinho preparado pelos organizadores da contenda, cujo prêmio principal era um iPod, as sugestões vão desde sérios e imponentes prédios envidraçados até brincadeiras com bunkers obscurantistas construídos nas valas dos K.I.A. da era W. Bush. Há também um grande número de privadas estilizadas.
Meu preferido é esse bunker com jeito de ogiva atômica, que inclui um “Hall do Petróleo “, dedicado à Dick Cheney, e um “Anfiteatro de Tortura” chamado “We do not torture”, além de um sala onde se pode ouvir qualquer telefonema nos EUA.

Veja mais idéias brilhantes para guardar os livros de W. Bush, o segundo.
Em tempo: W. Bush é um homem de muitos defeitos. Foi um jovem alcoolizado, converteu-se num fanático religioso, parece confortável no papel de fantoche neocom. Entrará para história disputando o posto de pior presidente dos EUA, junto com Jimmy Carter (uma injustiça) e Warren G. Harding (um presidente por acaso). Mas W. Bush tem uma virtude. Talvez por suas limitações intelectuais, não demonstra vaidades quando confrontado com as críticas. Ao contrário, no final das contas, ter sido presidente já foi uma experiência grande demais para se preocupar com essa história de fracasso. E, sobretudo, W. Bush sabe rir de si mesmo, uma virtude incontestável. Abaixo, numa confraternização com jornalistas que cobrem a Casa Branca, W. Bush esbanja bom humor, senso de pausa, roteiro inteligente e raro talento para o stand up comedy. Tem mais futuro que muito ex-presidentes por aí. (Em inglês).
Tags: Cultura · Política · ZAGG
Maio 13th, 2008
Myanmar emergiu com suas tragédias nos noticiários do mundo. Visitei o país em 2007. Queria ir para um lugar exótico e até então não conhecia ninguém que havia estado ali. O que atraía em Myanmar era o exotismo, ponto. Até comprar um guia de viagem, não sabia que Myanmar era Birmânia. Tinha nenhuma ou pouca idéia do importante papel geo-político na segunda guerra mundial, das belezas naturais e do imenso patrimônio cultural e religioso espalhado por todo país. Mais importante, não tinha dimensão da imensa afabilidade do povo myanmar. Sob uma ditadura absolutamente incapaz e intolerável, as pessoas na rua oferecem sorrisos de boa vontade e acolhimento, não propriamente desinteressados. Em países com tamanhas dificuldades, a figura do turista é sempre assediada como uma possibilidade de ganho. A diferença está num real interesse das pessoas em Myanmar pela origem e destino dos viajantes. Além da curiosidade normal é fácil reconhecer a vontade de conhecer, de relacionar, de interagir com outras culturas. Diversas oportunidades fui convidado a participar de encontros, festas ou reuniões por populares, cujo objetivo era jogar conversa fora. Encontrei mais tarde outras pessoas que visitaram o país, invariavelmente impressionados com a acolhedora população local.
A mais recente tragédia natural que devastou a região sudoeste do país, alcançando a capital Yangoon a poucos dias da eleição proposta pela junta militar para prorrogar seu próprio ocaso, pode acelerar a evolução política do país. As proporções do evento podem obrigar os relutantes líderes do país a autorizar a chegada de médicos e voluntários às regiões afetadas. Apens a circulação de pessoas criaria um novo momento político em Myanmar, num movimento irreversível rumo a abertura e democracia. Quiça o surrado dito se faça verdadeiro e venha a bonança.
Veja fotos
Tags: ZAGG
Maio 9th, 2008
Morreu Arthur da Távola. O sujeito foi um jornalista de texto envolvente, muito afável no trato e meteu-se em política. Era uma alento vê-lo no Senado da República, pelo Rio de Janeiro. Durante o mandato, apressou em dar um belo jeito na editora da casa (como fazia agora com a Rádio Roquete Pinto) e apresentava um singelo programa dedicado à música, digamos, erudita. Impressionava no senador a generosidade despretenciosa das suas aulas de boa música. Transparecia o prazer em compartilhar seu vasto conhecimento.
Vá lá, aos mortos reserva-se um panteão de virtudes, mas um senador como esse Távola, vai ser difícil encontrar. Nessas plagas, há Agripinos e Crivelas de mais e Távolas de menos.
Em tempo: Em sua homenagem o IV Movimento, Maestoso, da Sinfonia nº3 de Saint-Saêns, ouvida ontem com a Osesp, sob regência do simpático Yan Pascal Tortelier. Regia sem batuta, lembrando um guarda de trânsito interpretado por Charles Chaplin.
Aqui com a Filarmônica de Berlim e James Levine.
Maestoso
Tags: ZAGG
Maio 9th, 2008
Na Sala São Paulo, a Osesp se apresentou com o jovem ucraniano Kuba Jacowicz. Levaram a Sinfonia Espanhola, de Édouard Lalo, e a bela Sinfonia nº3 - com orgão - de Saint-Saêns. A peça de Lalo é fundamental no repertório de um violinista. Poderia dizer que nela há um exato equilíbrio entre técnica e sentimento, não tivesse lido entre as crônicas de Manuel Bandeira, recém publicadas pela CosacNaify, que “a técnica como arte, é essencialmente expressiva”. É um discussão interessante. Não raro o virtuosismo pode carecer de “alma”. Manuel Bandeira diz ser isso uma bobagem. Citando Nietzsche, lembra que no verdadeiro amor, a alma envolve o corpo. Assim, não poderia haver apuro técnico sem subjetividade, sem conteúdo espiritual, sem sentimento.
Abaixo você pode ouvir os dois últimos movimentos da sinfonia de Lalo com Jascha Heifetz ao violino, mestre na combinação de técnica e sentimento.
III Movimento, Andante, melancólico, com um fraseado ibérico bastante vivo.
III movimento
IV Movimento, Rondo: um allegro, divertido e colorido.
IV movimento
(a peça orginalmente tem 5 movimentos, o terceiro é muitas vezes ignorado, inclusive por Heifetz)
Tags: Cultura · ZAGG
Maio 2nd, 2008
A empresa responsável pela elevação do Brasil ao “Grau de Investimento” tem cerca de 140 anos. Surgiu da fusão de uma empresa de pesquisas e uma editora. Trata-se de uma produtora de conteúdo, para usar uma terminologia moderna, e faz parte de um complexo de empresas que incluem nomes conhecidos como a Business Week e a empresa-mãe, a editora McGraw-Hill. O objetivo principal dessas companhias é pesquisar, organizar e analisar informações econômico-financeiras para investidores, empresas e países decidirem o que fazer com seu rico dinheirinho, garantindo o bom fluxo de informações privilegiadas a quem acumula no capitalismo global. São, portanto, parte interessada e interessante.
Agora, aquela funcionária aposentada da fábrica de doces do Kentucky finalmente poderá arriscar-se um pouco no mundo maravilhoso dos juros extorsivos cobrados pela banca local e internacional, no mais fantástico processo de transferência de renda de um estado para rentistas ricos. O que antes era privilégio de, digamos, 2% dos brasileiros mais ricos e de investidores estrangeiros mais ousados, com o Investment Grade, estará perto dos bolsos da classe média americana e européia. Ou seja, ganhamos mais bocas ricas para alimentar, com a garantidíssimo pagamento de juros que o estado brasileiro vem cumprindo com rigor, ao longo dos últimos 10 ou quinze anos.
Vi uma entrevista com uma senhora da S&P. Às suas costas uma extraordinária vista da cidade de Nova Iorque e sua bonita paleta de cores, dos tons amarronzados do Brownstone, passando pelo céu plúmbeo até os vidros azulados dos arranha-céus e os pretos de suas arestas. Como uma diretora de colégio, a senhora S&P parabenizava o aluno-caxias, recém-saido da nota D. Virou um C-. E ainda recomendava mais uma outra ou outra lição para o sucesso no mundo dos “países sérios”, como resumiu Lula para seu povo.
Não deixa de ser patético um país do tamanho do Brasil extasiado por uma nota emitida numa salinha de uma empresa privada, ainda que a vista dali seja maravilhosa. Trata-se única e exclusivamente de um prêmio à ortodoxia econômica. Você fez tudo direitinho, ganhou notinha boa. Não é por menos que a S&P aportou no Brasil em 1992, quando a avalanche do mal chamado neo-liberalismo instalou-se no coração da república, cristalizado em oito anos de Pedro Malan na Fazenda e, agora, com Henrique Meirelles no Banco Central.
Numa tradução meio forçada Standard & Poor’s poderia significar “padrão-pobreza”. Não é a pobreza econômica, posto que o Brasil finalmente parece estar num ciclo de prosperidade projetado para o longo prazo. Tampouco há de se condenar que o país honre seus compromissos e siga as regras da razoabilidade econômica.
A mediocridade está na pobreza das idéias, na falta de um imaginário de alternativas de organização social. É uma inversão de valores. O Brasil, quem diria, acabou abençoado por aquela senhora emoldurada por Nova Iorque cujo lenço enrolado no pescoço refletia na reluzente mesa de mogno vindo da Amazônia.
Nosso risco é isso bastar.
Tags: Política · ZAGG
Maio 1st, 2008
Tags: ZAGG
Abril 15th, 2008
Na Folha de domingo (11/04), um artigo algo imperdível do filósofo esloveno Slavov Zizek, sobretudo para os bem intencionados circulando com camisetas “Free Tibet”. Não raro, o Tibet e a resistência tibetana é entendida como uma luta entre bonzinhos e malvados, uma redução simplista que está na base do conservadorismo involuntário das boas intenções. Zizek registra a situação caótica vivida pelo Tibet independente pré-1949, um país cuja elite privilegiada desfrutava do mais arcaico feudalismo, deixando seu povo à miséria enquanto seus filhos cresciam em escolas britânicas na India. Mais além, o articulista lembra o envolvimento na CIA na incitação anti-China e coloca em xeque a visão corrente de que a “limpeza cultural” promovida pela China seja um fenômeno importado, sem nenhuma interlocução no interior da provincia. É uma abordagem critica e bem fundamentada, até para os que pretendem defender o tal “Tibet Livre”, a rigor, uma invenção da imaginação silk screen.
Na passagem mais interessante do texto, Zizek faz menção a um tema de especial interesse para este que vos aborrece. A percepção de filial do paraíso que o budismo, ou o entendimento corrente do que vem a ser budismo, goza. Há uma tendência de projetar o Tibet e o budismo em geral como uma Xangri-lá do equilíbrio e da boa vontade, o que, na realidade, é uma tentativa de alíviar a barra do nosso próprio consumismo desenfreado e vaidoso. Um atalho perigoso, higienizando sociedade e religião, retirando questões de fundo de conflitos seculares, invariavelmente tensionados e irracionais, de ambos os lados. Nem o Tibet pré-China era um paraíso, nem o budismo é uma religião “adaptável” ao século XXI. E mesmo o Dalai Lama - e Zizek não parece se dar conta desse fato - não se cansa de reforçar que não devem existir “meio budistas” em seu abnegado rebanho.
Grande parte das manifestações de artistas e personalidades pró-Tibet se encaixam nessa espécie de cartilha da cultura coió cabecinha boa e miolo mole. Pega bem estar ao lado de tibetanos, palestinos, tchetchenos ou qualquer outro David insurgente contra os malvados Golias do mundo. Nesse embate, cuja porosidade abunda, roga-se culpa total aos “malvados” e perdão absoluto os “coitados”. Nesse contexto, por que não os Yanomamis?
Em tempo: estive num campo de refugiados tibetanos na India, numa localidade próxima a Bangalore e na província chinesa de Yunnan, vizinha ao Tibet. O campo de refugiados é tratado como área de segurança nacional pelo exército indiano. Convidado a me retirar por não ter autorização legal para estar ali, a truculência do policial indiano contrastava com a delicadeza dos traços e encantamento dos gestos da jovem tibetana que convidou para assistir as festas Ano Novo Tibetano. Em Zhongdian, auto-proclamada a verdadeira Xangri-lá, a população tem marcadamente influência tibetana, nas roupas, nos monastérios e na face das pessoas.

Veja mais fotos
Tags: Cultura · ZAGG
Abril 11th, 2008
O nome é ruim. Os atores sairam de “Malhação”. O diretor é estreante. O roteiro, mais um, é tarantinesco. E o filme fala de protodelinquentes de classe média. Tudo conspirava contra “Odiquê” de Felipe Jofilly, que eu peguei por acaso no videoclube. Mas o filme é todo contrário. A começar pelos letreiros, sem os patrocinadores tradicionais do cinemão. É um filme verdadeiramente independente, com um ar de “vamos fazer um filme aí”. Vá lá, a trama é meio manjada, ainda assim, o roteiro consegue aprofundar a psicologia dos personagens, garotos da classe média carioca, dando consistência e, em algum nível, um debate sobre questões de fundo da juventude e da sociedade carioca. Deveria ser curricular nas escolas da Zona Sul. A gangue desajustada, a primeira vista uma turminha de simpáticos maconheiros de portão de prédio, vai aos poucos se tranformando em canalhas pequeno-burqueses ou pequenos-burqueses canalhas, como preferir. São “Os Cafajestes” dos anos 2000. Simples, direto e eficaz. Passou desapercebido pelos cinemas, por certo por não estar atrelado a nenhum esquemão de distribuição.
Em tempo: há uma boa onda na direção de atores no Brasil, apostando na coloquialidade e no realismo. É uma salvação do cinema nacional, de atores de mais e personagens de menos. Provavelmente as escolas de atores discutem esse tema, com trincheiras de parte a parte. O fato é que para o espectador leigo, leiguíssimo, personagens críveis são mais importantes. E a credibilidade é o ator pensando como o personagem, agindo como o personagem. É muito distante, e melhor, do grande ator interpretando um grande ator interpretando personagens. Os garotos de “Malhação” funcionam muito bem esgoelando gírias e palavrões como qualquer jovem de classe média. No limite, é o que eles são.
Tags: Cultura · ZAGG
Abril 2nd, 2008
Semana passada meu caríssimo amigo Álvaro Andreucci defendeu sua tese de doutorado na História da USP. É um gênio da raça. Por “raça” me refiro a meia dúzia de três ou quatro que vi perambular pelas ruas do bairro. Depois do “Risco das Idéias”, sua tese de mestrado sobre a perseguição de intelectuais na Era Vargas nascida do recém aberto arquivo do Deops, o trabalho do agora Dr. Andreucci versa sobre as agruras vividas pelos próceres do Superior Tribunal de Justiça, entre 1933 e 1942, quando Vargas usou toda a sua força para constranger juízes com sua paradoxal política, autoritária e populista, eficiente e popular. “A Cadeira de Espinhos” é o nome da peça.
Dr. Andreucci é bom de títulos. Reparem bem, são dois títulaços. Ainda não li ainda sua mais recente obra, aprovada com recomendação à publicação. Posso falar de “O Risco das Idéias”, um texto despretencioso e, por essa razão, instigante. O tratamento dado pelo autor ao privilégio de ter feito parte do primeiro time de pesquisadores a escrutinar os arquivos do Deops é rico e pleno de curiosidades. Vou repetir aqui a minha preferida.
“(…) Mario Lago, acusado de participar da “Campanha Antiatômica” e o pintor Korotkoff Lioubomoristy, imigrante de Constantinopla em companhia de uma “meretriz judaica Riva de tal”. Ou ainda essa simpática cantiga anarquista (de Filhos do Povo, grafia original):
“Esses burgueses assás egoistas.; Que assim desprezam da humanidade; Serão varridos pelos anarquistas; Ao bradol viril da liberdade.; Ah! Rubro pendão; Abre o porvir; A exploração; Há de sucumbir; Nosso paiz; Não romperáz; Torpe burguez; Atraz! Atraz!”
Pois bem, numa quarta-feira fui assistir à banca examinadora arguir meu velho amigo e ainda pré-doutor Andreucci. Preparado para uma final de campeonato, fiquei surpreso com o clima sereno de aprazível pelada dominical. Vá lá, frente aos não tão duros questionamentos da banca, o doutor, em verdade um arqueiro de grande envergadura, distribuiu argumentos como um Ademir da Guia das palavras. O grandíssimo camisa 10 palestrino, que entendeu como poucos o ensinamento supremo de “quem deve correr é a bola, não o jogador“, não se desapontaria com seu discípulo amortecendo no peito cada altercação e deixando o jogo das idéias fluir em direção a meta.
Tags: ZAGG
Março 22nd, 2008
A sonata nº23 para piano de Beethoven é apelidada de “Apassionata”. É uma das mais belas do gênio de Bonn. Estava a procura de uma interpretação específica dessa peça e no YouTube cheguei a um certo Guy Marchand e a sua “La Passionata”. Nada ver coisa com outra. Achei engraçado e postei nesse sítio. O leitor amigo pode vê-la abaixo. É disparado o despacho mais acessado, graças às ligações vindas dos mecanismos de busca. Milhões de pessoas acordam todos os dias dispostas a procurar por “La Passionata” e não a “Apassionata” de Beethoven. O objetivo das buscas é provavelmente é uma marca de sutiãs e não a “La Passionata” de Guy Marchand e seu clip musical tosco. Mas reparem no plano fechado dos pés da dançarina flamenca, martelando o tapete enrugado. Genial. Marchand continua na ativa. Fez filmes aqui e ali, programas de TV e tem carreira sólida no populacho francês. Sim, porque francês quando quer ser brega é imbatível.
Quem preferir ver a Sonata 23, com Claudio Arrau, aproveita. É o primeiro movimento, no final do video dá para ver os próximos três.
-
Para ver Guy Marchand (vale pela nonsense da coisa toda). Procure também “Destinée”, trilha do filme “Les Sous-Doués en Vacances”, uma bobagem sem tamanho com o grande Daniel Auteil no elenco.
Tags: Cultura · ZAGG
Março 19th, 2008
Finalmente ela chegou. Após 6 anos navegando em céu de brigadeiro, o governo Lula enfrenta sua primeira grande crise internacional. A ausência de uma crise dessas era a desculpa perfeita para as incompetências tucano-fernadistas. Lula não havia enfrentado nada parecido com os tremores que abalaram a economia brasileira entre 94 e 2002, pondo a prova todo receituário ortodoxo do “apertem o cintos o piloto sumiu”. Com soluções na linha arrocho generalizada e explosão dos juros, a idéia de que a vulnerabilidade total é um fato da globalização virou um postulado. Balela. O continuísmo deliberado do governo Lula num período inédito de expansão economica internacional reverteu o quadro em favor do Brasil. A gravidade da crise estadunidense é incalculável. Cambaleante e sem rumo certo, pode perecer num processo de recuperação de uma década. MAs, de fato, o Brasil é muito menos vulnerável aos resfriados alheios. Precisamos saber o que acontece se o quadro evoluir para a pneumonia.
Tags: ZAGG
Março 11th, 2008
Esse sitio foi insistentemente hackeado nas últimas semanas. Ou seria melhor raqueado? Lo que sea. Não acredito numa ação deliberada. Seria pretencioso admitir uma repercussão capaz de criar animosidades. Provavelmente esses garotos atiram para todo lado e fazem vítimas aqui e ali. Se invadem o FBI, as medidas de segurança do meu sitio devem parecer uma cerca de meio metro. Conversei com alguns amigos versados no mundo da segurança de rede e que tais. Na terceira frase da explicação, já não entendia grande coisa. A vulnerabilidade do sistema como um todo é enorme e existem buracos penetráveis a qualquer um disposto a gastar algumas horas quebrando senhas. [Leia mais →]
Tags: ZAGG
Março 3rd, 2008
Sobre Juno, fui ver ontem. Achei interessante, mas fui com muita expectativa.Tenho uma certa implicância com tratamentos suaves para temas complexos. Gravidez adolescente é uma problema sério demais para ser tolerado “se a pessoa tiver uma boa cabeça”. É uma ideologia da geração MTV. Tudo pode se for bem resolvido na cabecinha do adolescente. Se acontecer em comunhão com os pais moderninhos, melhor ainda. Uma situação artificial demais essa, corroborada pelas falas da Juno. A menina é linda, boa atriz, simpática e carismática. Mas, não contive o trocadilho imbecil, Juno é um gênio. Ela não diz uma palavra fora do lugar, suas assertivas são interessantes, seu humor é ácido na medida e a moça ainda tem um bom coração. Por fim, termina com o bom mocinho. Vá lá é uma fábula, mas a máxima transgressão de Juno é dirigir aquele trambolho na neve, até Dumbo arrisca-se mais. Por outro lado, Juno é uma versão amenizada do relativismo dos tempos que correm. Tudo pode, tudo é relativo, tudo pode mudar. No fundo, a aparente maturidade de Juno e da geração que ela representa, esconde uma das faces do novo conservadorismo.
Em tempo: bati os olhos no Google para ver se alguém mais teve a infeliz idéia do título desse post. Me surpreendi com o significado oferecido pelo Wikipédia, guardadas as devidas precauções. Colo aqui.
“Na Mitologia romana, cada homem tinha um gênio e cada mulher uma juno (que também era o nome da rainha dos deuses).
Originalmente, o gênio/juno eram ancestrais que zelavam por seus descendentes. Com o passar do tempo, eles se transformaram em espíritos guardiães pessoais, concedendo intelecto e grande talento. Sacrifícios eram feitos para o gênio/juno de cada pessoa, na data do aniversário dela.
A juno era venerada sob muitos títulos:
- Iugalis - protegia o matrimônio
- Matronalis - protegia as mulheres casadas
- Pronuba - protegia as noivas
- Virginalis - protegia a virgindade
Em acréscimo a cada gênio/juno individual, regiões, famílias, domésticos e cidades tinham gênios. O gênio do povo romano era um jovem alado, nu. Os genii dedicados a lugares eram usualmente representados como serpentes.”
A ultra-simpática trilha de Juno oferece mais uma pérola do “folque cabecinha boa” Anyone Else But You Anyone Else But You dos The Moldy Peaches.
Tags: Cultura · Política
Fevereiro 27th, 2008
Não se pode deter o que está por vir. Uma frase aparentemente jogada no roteiro de “Onde os Fracos Não Tem Vez” é a essência do filme dos irmãos Coen. A película fala sobre o conflito entre dois mundos, ou talvez entre vários mundos, em meio o deserto arisco do Texas. A sobreposição de temas contemporâneos como ultra-violência, drogas, psicopatia e mesmo o rastreamento é pano de fundo para uma discussão mais intensa. Aquele senhor, sentado numa cadeira de balanço, conversa com um desolado Tommy Lee Jones, o xerife cansado de já ter visto de tudo, é a voz saudosista dizendo que o pior ainda está por vir. É mais um entre as pesonagens que surgem sem avisar. Não é por acaso.
Essa é uma especialidade dos irmãos Coen. Retratam a desgraça humana usando caipiras nas profundezas estadunidenses, do norte gelado de Fargo ao deserto escaldante de “Onde os Fracos Não Tem Vez”. Mesmo explorando as personagens mais grotescas, seus perdedores contumazes, os Coen o fazem com um condescendência admirada. Não ridicularizam seus tipos, como se dizessem, “fosse eu um bronco do meio-oeste faria o mesmo”. Os Coen são hoje os melhores documentaristas da ficção americana.
A linearidade de “Onde os Fracos…” se perde num momento preciso do filme. O herói é abatido e sua morte não ocupa mais que segundos na tela. A morte se esvai no absurdo psicótico de Javier Barden, o grim reaper, e contamina o roteiro do filme. Todos os nós da trama se desatam para não mais haver sentido. E aí que aparece o velho na poltrona e decreta “Não se pode deter o que está por vir”.
Mesmo com essa tradução exdrúxula, o título escolhido para a versão em português não deixa de ser interessante. Resgata uma tradição de títulos poderosos para filmes de caubói. Mas só conta uma parte da história. “No Country for Old Men” significa sim “onde os fracos não tem vez”. Mas esconde a verdadeira mensagem do filme. Nessa terra inóspita do presente, os mais velhos não tem a menor chance de sobrevivência.
Tags: Cultura · ZAGG
Fevereiro 25th, 2008
Toda unanimidade é burra. Essa frase, pérola genial do cinismo, é praticamente uma autocontradição performativa, algo que os lógicos explicam como uma afirmação que contradiz ela mesma. Se toda unanimidade é burra, a burrice também seria unânime, inclusive a da frase, se entendi uma coisa ou outra.
A curva da unanimidade é uma das leis que regem as pautas da semana nesses tempos opinativos. Comentadores, colunistas, críticos, pseudo-críticos e demais personagens, inclusive este que vos aborrece, estão submetidos a duas leis básicas. A do ineditismo, nada mais do que sacar antes uma informação para frequentar as pautas da semana e a curva da unanimidade, que é perceber antes o momento em que o vento muda. Daí é só bater forte em quem recebia aplausos, ou vice-versa, aplaudir quem andava a tomar apupos
O já ultra-citado Tropa de Elite é bom exemplo. Vinha ganhando confetes pelo seu desempenho pirata até lhe aplicarem o cartão amarelo. A mudança de humores foi instantânea em pouco tempo o filme virou um peça de propaganda facista. Cidade de Deus, exaltado no lançamento, no final acabou recendo as credenciais de estetização da violência ou do publicitarianismo. O prêmio em Berlim, com um juri de esquerda, vai dar uma folga para Padilha e sua tropa, afinal, outra jequice Varonil é a sindrome do reconhecimento internacional, mas isso é outra história.
Quem está a cruzar o cabo da boa esperança unanimidade é Barack Obama. Óbviamente as informações a respeito de sua ação política real são limitadas e as paixões que desperta na fauna são pura projeção e otimismo. Aos poucos já começam a aparecer suspeitas as verdadeiras intenções do senhor carisma, o homem-discurso. Primeiro o plágio, agora associação a um conhecido gangster. Vai chegar a anti-semitismo.
É difícil saber se a onda Obama vai continuar crescendo. Se Madame Clinton reverter esse quadro, algo improvável, ou Obama perder de McCain, bem mais plausível, Obama virá o mito que nunca chegou lá. Presidente, Obama deixará de ser um bibelô messiânico para viver a dura realidade dos fatos. Esse filme já passou em algum lugar ao sul do Equador.
Tags: Política · ZAGG
Fevereiro 21st, 2008
Não faz muito tempo Fidel Castro discursava para uma multidão na Avenida Malecón. Falou, como sempre, horas a fio. O tradicional dedo em riste cutucando os imperialistas já cedia lugar a um gesto repetitivo. Raspava o polegar opositor na gola de seu uniforme verde-oliva. É um gesto idoso. Quando o tato vai se perdendo, sentir o tecido da roupa é um exercício de memória. De longe parecia um tergal. Meio brilhoso, meio engomado. Como um terno da Ducal, era o comandante chegando ao fim.
Fidel saiu do poder para entrar para a história. Fora do comando ele é história. Os jornais falam dele como um morto, como lembrou um cronista, quando ele morrer não vai haver notícia. Sua renúncia foi obviamente um ato político consciente, sofisticado até. Doente, planejou uma transição lenta e gradual. Escreve no Granma textos de uma lucidez impressionante.
Bem informado e interessado sobre as coisas da vida e do mundo, deve passar seus dias na internet. Os outros cubanos não. Talvez dadas as contradições da revolução. Se não existissem, estaríamos nas cavernas. O ímpeto revolucionário de Fidel é um patrimônio da humanidade. Fidel é demasiadamente revolucionário, demasiadamente contraditório, demasiadamente humano. Demasiadamente Fidel até o seu último dia.
O polegar opositor diferencia homens e macacos dos outros mamíferos. O uniforme verde oliva diferencia os homens dos macacos. O tato e o tecido, diferencia os homens.
Tags: Política · ZAGG